Terça-feira, Dezembro 22, 2009

O Livro dos Porquês

Os porquês justificam as dúvidas das crianças. Os porquês justificam as nossas escolhas e atitudes. Os porquês são obrigatórios para os mais curiosos. Os porquês podem ir até ao mais ínfimo pormenor.

Mas há dias que se tornam noites cedo fazendo-nos mergulhar na mais antipática das sensações. E aí os porquês ficam sem resposta. Porque só há respostas incoerentes e sem sentido, incapazes de justificar o porquê de sentirmos que o mundo nos foge das mãos.

Há conversas que pioram esse sentimento, desencadeiam pensamentos e recordações menos boas. O culminar atinge quando começo a pensar "e se...". A verdade é que o que foi já não volta a ser. Nunca voltou e desta vez não ia ser diferente. Creio que era desafiar demasiado as leis que regem o universo.

Ontem fez-se noite cedo mas rápido amanheceu. Pelo menos o meu sol brilhou enquanto te tive por perto. E quando te foste já não havia motivo para ter medo do escuro. O sol já se tinha levantado e um novo dia recebia-nos de braços abertos.

Ainda que saiba os teus porquês, o nosso nível 2 está garantido.

Domingo, Dezembro 13, 2009

E Siga Para Bingo

Talvez a única noite em que gostei realmente de ir ao casino. Não pelos trocos que trouxemos no bolso mas sim por tudo. Foi das últimas vezes que trocamos sorrisos e rimos juntos das mesmas coisas.
Seguiram-se confusões mais ou menos inocentes e um coração fraco de mais para aguentar distâncias mais ou menos propositadas. O mais e o menos separou-nos. Multiplicaram-se as peripécias menos felizes. Dividiram-se tristezas e desilusões por quem tinha razão, por quem não tinha razão de todo e por quem não tinha nada a ver com o assunto. E no final de tamanha equação já não existia o sinal igual, porque tudo se tornou diferente.

Apesar de tudo, siga para bingo já que a roleta não nos trouxe mais sortes daquelas. Não me resta muito mais para não voltar para casa de bolsos vazios.

Sábado, Dezembro 05, 2009

Ausência

Não deixaste de ter razão de existir nem tão pouco desactualizaste. Todas as histórias que contas (umas mais fiéis à realidade que outras) continuam tão vivas na minha memória como o dia em que foram escritas. Contudo o tempo escasseia e os dias nunca dão para tudo o que gostaria de fazer.

É verdade que perco tempo a respirar fundo à janela logo de manhã para sentir os cheiros deste novo sítio que me acolhe. Mas como posso fugir à tentação de ter no lugar onde vivo todos os cheiros que recordam a minha infância?

É verdade. Isto não é propriamente o paraíso nem o lugar perfeito para viver. Mas consegue reunir todos os cheiros que povoam a minha memória. Consigo sentir o cheiro da manhã da véspera de natal na aldeia da minha mãe. Quando chove, consigo sentir o cheiro dos finais de dias chuvosos em que ficava na janela da sala deixando-me embalar pelas luzes daquela pequena cidade que é tudo para mim.

E tenho a certeza que quando der um ar de natal à minha casa, os cheiros da aletria e dos doces que todos os anos encheram as mesas dos meus natais vai também fazer parte deste meu espacinho. O nosso espacinho!

Quarta-feira, Outubro 07, 2009

Dia de Chuva no Porto

Os primeiros dias de chuva e frio do ano são sempre os mais complicados. Despertam memórias a norte do Douro ou não fosse o Porto conhecido pelos seus tons de cinzento que cobrem o céu, os prédios e a calçada dos Aliados.

Há cerca de 5 anos que associo as primeiras chuvas à minha cidade berço. Antes disso, chuva era triste, chato, inoportuno. Até ter adquirido maturidade suficiente para olhar em redor e perceber a beleza escondida de um dia de chuva na baixa portuense. Tudo o que é cinzento mesmo em dias de sol, adquire um tom mais escuro. Os chapéus de chuva invadem pontos estratégicos da cidade e vão conhecendo cada gota de chuva que cai ao som dos pregões tão familiares das vendedoras de rua.

Tenho saudades de ser recebida todas as manhãs por essas senhoras que não perdiam uma hipótese de me vender qualquer novidade que tivessem entre mãos. Depois vieram os jornais gratuitos que destruíram alguma beleza da típica chegada ao Porto mas aprendi a fazer aquilo que ainda faço seja onde for: ignoro-os e lanço o meu olhar e o meu sorriso à vendedora mais próxima numa tentativa de dizer um "não" simpático aos produtos que ela apregoa.

A Rua da Cedofeita, sempre escorregadia com aquela triste calçada portuguesa. Nunca gostei daquela calçada. Mas agora tenho saudades de patinar logo de manhã; andar bem devagar para não arriscar uma queda embaraçosa. Era obrigada a reparar em todos os pormenores daquela rua. As lojas, as antigas retrosarias que contavam com as compras para as minhas invenções de design kitsch, os cafés e aqueles bolos na montra...

Sabia bem tomar café naquele canto perto do balcão, resguardado do frio e acolhedor. Tão acolhedor que me fazia esquecer o passar das horas e lá perdia a primeira aula. E a segunda...
Rápido passava o dia entre passeios pela Rua Santa Catarina colorida pelos chapéus de chuva tão diversos que tapavam a cabeça dos portuenses. Depressa chegava a última aula, o anoitecer precoce e a hora de voltar àquela estação grandiosa e tão bonita.

Mas chuva no Porto não era só isso. Um quadro que quisesse transmitir não só as cores mas também os cheiros e as sensações de um dia de chuva na cidade invicta tinha de ter ao canto o cabelo molhado, uma capa negra traçada, uma lágrima partilhada, um sorriso cúmplice com aquela que está mesmo ao nosso lado, sapatos encharcados e vinho do porto para brindar o final da noite.

Segunda-feira, Outubro 05, 2009

Quando o Céu Não Chega

Quando o céu não chega, sonha-se mais alto.

Quando o céu não chega, temos de tentar alcançar uma a uma todas as estrelas que povoam o nosso universo, chegar a cada um dos planetas que por aí orbitam, descobrir os prazeres da gravidade (ou da falta dela).

Quando o céu não chega, preparo-me porque sei que a tarefa não é fácil. Investigo, leio muito e escrevo ainda mais. Descubro o que te pode levar mais alto. Faço porque me pedem, faço porque quero, faço até quando não quero nem me pedem mas sei que deve ser feito.
Como vos digo. Neste momento tenho como prioridade a minha vida profissional agora que já alcancei toda a estabilidade que precisava na minha vida pessoal. E não me quero ficar pelos "desenhos" pelos quais me pagam e que me obrigam a estar fechada num escritório com vista para a Serra de Sintra 8 horas por dia.

Quero fazer mais e melhor para daqui a um ano olhar para trás e me orgulhar de ter feito muito mais do que aquilo que me era exigido. E continuar cada vez mais a inventar e a criar formas de estar ocupada e crescer.

Aprender, quero aprender muito. E não se aprende só com os profissionais que fazem o mesmo que nós mas há mais tempo. Claro que essas pessoas nos transmitem valiosos tesouros e sem eles eu não seria nada. Seria mais uma recém-licenciada que não sabe nada de nada. Mas sei que também podemos aprender com aqueles que sabem menos do que nós. E é nisso que quero apostar neste momento.

Quando o céu não chega, há que torná-lo ainda mais grandioso e exigente para voltarmos a ter ganas de o conquistar mais uma vez.

Terça-feira, Setembro 15, 2009

Moleskine no Bolso

O Público começou ontem a publicar uma colecção que reúne os 1000 objectos de culto que revolucionaram o nosso quotidiano e que, sem os quais, já não saberiamos viver.
Logo no primeiro número falam-nos do famoso moleskine. Aquele pequeno texto da evolução dos famosos caderninhos despertou em mim aquela vontade de ter um só para mim. Normalmente uso o meu caderno de rascunhos em viagens quer para escrever, quer para desenhar ou simplesmente para apontar uma ou outra ideia para um trabalho novo.

A verdade é que, se fui adiando a sua compra, é simplesmente porque as coisas que escrevo deixam de ter aquele sabor quando as "re-escrevo" aqui ou noutro sítio qualquer. Perdem a essência do momento e de cada vez que olho para elas quero mudar algo. Mas mudando nem que seja uma vírgula, deixa de ser o texto que escrevi naquele exacto momento com aqueles pensamentos todos a povoarem a minha cabeça.

Mas desta vez vai ser diferente. Desta vez vou comprá-lo. Vou enchê-lo de rascunhos e quando estiver cheio, vou guardá-lo numa prateleira da minha sala. Porque será que estive tanto tempo com a ideia que o que escrevo nos meus cadernos tem de ser publicado? Posso simplesmente guardá-lo para mim e para quem quiser lê-lo quando a programação da tv não lhe agradar. Como tantas outras folhas perdidas que guardo religiosamente numa caixa de papelão.

Permitam-me o egoísmo, mas vou fazê-lo. Moleskine no bolso e parto à aventura. Daquelas aventuras que vão ficar escritas à mão e em papel, à maneira antiga!

Quinta-feira, Setembro 03, 2009

Balanço na Reentré

Hoje a minha empresa faz dois anos de vida. Apesar de não estar desde o início nesta empresa, sinto-me a crescer como ela.

Já fiz, algures no início do ano, o meu primeiro ano de convivência assídua com os lisboetas. Tudo começou com um estágio no Público. Aprendi tudo o que sei em infografia. Evolui imenso nessa matéria e ainda tenho pena de ser um tema que passa tão despercebido em Portugal. Gostava particularmente do aspecto descontraído dos designers, infografistas, fotógrafos... a contrastar com o aspecto cuidado dos jornalistas mais velhos. E trabalhar em pleno centro de Lisboa, mais exactamente Picoas, era das maiores vantagens que tem o Público. Entras às 11h00 da manhã, sair às 19h00 e ainda ter tempo de ir beber uma imperial antes do jantar a uma esplanada da baixa.

Seguiu-se a PT-SI e a ligeira desilusão. Não é bom estar a fazer um trabalho que exige criatividade envolvida por paredes brancas e uma sala com aspecto de call-center. Vou buscar a criativade no programador que está sentado à minha frente? Mas guardo com carinho as memórias das várias pessoas que trabalharam comigo: os olhares e sorrisos cúmplices trocados com a Márcia, a hora do chá da Katz e da Ana, os intervalos para fumar com o Jorge e os rapazes, as confusões com os programadores, o desafio de conseguir cinco minutos a falar com o Luís sem que o telemóvel tocasse... Ufa!

E de repente, no meio de um mês de chuva e exames para os que me eram mais chegados, surgiu resposta a um dos currículos que enviei só porque sim, só para não me limitar a responder a anúncios... Logo na altura em que pensava tirar umas férias e rumar ao norte por uns dias para pensar bem na próxima etapa que se aproximava. Escusado será dizer que os meus planos tiveram de ser cancelados e as férias resumiram-se a um simples fim-de-semana como tantos outros.

Agora, passados 5 meses nesta empresa e ano e meio em Lisboa vejo que cresci. Cresci enquanto pessoa e tornei-me independente. Conquistei o meu espaço, a minha casa, as minhas coisas. Cresci enquanto profissional tornando-me cada vez mais autónoma e completa na vasta área que é o design. Suporto nos ombros a responsabilidade disso tudo com gosto. Pesa tanto como uma pena.

By the way, Parabéns.