Os primeiros dias de chuva e frio do ano são sempre os mais complicados. Despertam memórias a norte do Douro ou não fosse o Porto conhecido pelos seus tons de cinzento que cobrem o céu, os prédios e a calçada dos Aliados.
Há cerca de 5 anos que associo as primeiras chuvas à minha cidade berço. Antes disso, chuva era triste, chato, inoportuno. Até ter adquirido maturidade suficiente para olhar em redor e perceber a beleza escondida de um dia de chuva na baixa portuense. Tudo o que é cinzento mesmo em dias de sol, adquire um tom mais escuro. Os chapéus de chuva invadem pontos estratégicos da cidade e vão conhecendo cada gota de chuva que cai ao som dos pregões tão familiares das vendedoras de rua.
Tenho saudades de ser recebida todas as manhãs por essas senhoras que não perdiam uma hipótese de me vender qualquer novidade que tivessem entre mãos. Depois vieram os jornais gratuitos que destruíram alguma beleza da típica chegada ao Porto mas aprendi a fazer aquilo que ainda faço seja onde for: ignoro-os e lanço o meu olhar e o meu sorriso à vendedora mais próxima numa tentativa de dizer um "não" simpático aos produtos que ela apregoa.
A Rua da Cedofeita, sempre escorregadia com aquela triste calçada portuguesa. Nunca gostei daquela calçada. Mas agora tenho saudades de patinar logo de manhã; andar bem devagar para não arriscar uma queda embaraçosa. Era obrigada a reparar em todos os pormenores daquela rua. As lojas, as antigas retrosarias que contavam com as compras para as minhas invenções de design kitsch, os cafés e aqueles bolos na montra...
Sabia bem tomar café naquele canto perto do balcão, resguardado do frio e acolhedor. Tão acolhedor que me fazia esquecer o passar das horas e lá perdia a primeira aula. E a segunda...
Rápido passava o dia entre passeios pela Rua Santa Catarina colorida pelos chapéus de chuva tão diversos que tapavam a cabeça dos portuenses. Depressa chegava a última aula, o anoitecer precoce e a hora de voltar àquela estação grandiosa e tão bonita.
Mas chuva no Porto não era só isso. Um quadro que quisesse transmitir não só as cores mas também os cheiros e as sensações de um dia de chuva na cidade invicta tinha de ter ao canto o cabelo molhado, uma capa negra traçada, uma lágrima partilhada, um sorriso cúmplice com aquela que está mesmo ao nosso lado, sapatos encharcados e vinho do porto para brindar o final da noite.